"É inaceitável o Sporting ter apenas um ponta de lança no plantel"

Fernando Mendes conhece como poucos o momento que vive o Sporting. O antigo jogador leonino esteve à conversa com o Desporto ao Minuto e aproveitou, não só para analisar as dificuldades sentidas pelo clube durante o último ano, como também para apontar soluções para o futuro imediato dos verde e brancos, que ainda têm três provas por disputar em 2019/20.

A prestação do Sporting nas competições europeias, assim como a aposta na formação e o ‘ataque’ ao próximo mercado de transferências, também foram temas de conversa, numa entrevista que pode ler de seguida:

2019 está a chegar ao fim. Que balanço faz da prestação da equipa de futebol do Sporting durante este último ano?

As coisas não começaram bem. Logo na pré-época, o Sporting não conseguiu vencer qualquer jogo. O facto de o clube, em termos financeiros, não ter a mesma capacidade de, principalmente, Benfica, mas também FC Porto, não deu para reforçar o plantel como se queria, e as coisas não começaram a correr da melhor maneira. Depois, a derrota por 5-0 com o Benfica, para a Supertaça, também não ajudou nada. Foi construído um plantel que é, na minha opinião, desequilibrado, que não é competitivo e no qual faltam algumas soluções em certas posições. Têm estado a tentar desenrascar com o que já têm em ‘casa’, ou seja, com jogadores que já fazem parte do plantel. Há ainda que salientar que o Sporting já teve três treinadores esta época. Não foi um início fácil, mas parece – reforço: parece – que as coisas estão a melhorar, com o trabalho que se tem feito. Mas esta confusão toda em torno do clube também não foi favorável. Agora, resta apenas trabalhar e esperar pelo mercado de transferências. Oxalá consigam, com o pouco dinheiro que o Sporting tem, arranjar alguns jogadores com qualidade para atacar a segunda volta.

Então, o que pode ser feito de forma diferente para que esta segunda metade da temporada corra melhor?

Havendo dinheiro [para investir no mercado], têm de ser mais seletivos nas contratações. E, quem vier, tem de ser para jogar, e não para encher o plantel. Tendo pouco dinheiro, o Sporting tem de ser mais seletivo na hora de escolher jogadores. Por exemplo, é inaceitável o Sporting ter apenas um ponta de lança no plantel [Luiz Phellype]. E, na altura, o clube ainda estava a disputar todas as provas, neste momento está em três [o Sporting foi eliminado da Taça de Portugal]: campeonato, Taça da Liga e Liga Europa. Isto apesar de as coisas no campeonato estarem muito complicadas, o Sporting está muito longe do primeiro classificado. Tirando isso, existem duas provas ainda em disputa. Uma está mais próxima, a Taça da Liga, mas há que fazer um bom papel também na Liga Europa. Para isso, na minha opinião, é preciso contratar um ponta de lança e aproveitar os jogadores que estiveram mais tempo lesionados, como o Rodrigo Battaglia e o Jovane Cabral. São dois jogadores com capacidade para acrescentar qualidade ao plantel.

E entre os jogadores que o Sporting tem emprestados a outras equipas, algum deles teria qualidade para reforçar o plantel principal?

Não vou entrar por aí, pois esses jogadores já estiveram no Sporting e as coisas não funcionaram. Há jogadores a quem faz bem mudar de ares, as coisas começam a correr de forma diferente. Se eles estivessem cá, a equipa seria mais forte? Isso é uma incógnita, é precipitado chegar a essa conclusão. Tendo a postura que têm nos clubes onde estão agora, com certeza seriam mais-valias para o Sporting. Mas são contextos completamente diferentes. Por exemplo, o Matheus Pereira é titular no West Bromwich Albion e o Domingos Duarte é titular no Granada. No entanto, uma coisa é ser titular e as coisas irem correndo bem; outra, é estar aqui e raramente jogar. Mas que eles poderiam ser mais-valias, isso poderiam.

Com o Sporting atualmente na terceira posição, a 13 pontos do líder do Benfica, acredita que o clube ainda tem hipóteses de lutar pelo título em 2020?

Não é impossível, mas também não é fácil isso acontecer. O Sporting tem agora um ciclo de três jogos para a I Liga, jogando contra FC Porto, em casa, Vitória de Setúbal, fora, e Benfica, novamente em casa. Vencendo esses três jogos, ficaria mais perto, claro. Mas o Sporting não depende só de si próprio, as coisas não são fáceis. Vai ser complicado chegar lá, mas, no futebol, não há impossíveis. Há muitos jogos pela frente. Neste momento, e acima de tudo, há que cimentar o terceiro lugar, que é isso que o Sporting está a fazer, e bem. Recuperou o terceiro lugar e, agora, o que está mais próximo é o segundo classificado, não é o primeiro. Portanto, neste momento, o mais importante é cimentar o terceiro lugar e chegar o mais próximo possível do segundo.

Cimentando essa terceira posição no campeonato, considera que o Sporting deverá dar especial atenção à Taça da Liga e à Liga Europa, as outras competições que ainda disputará esta temporada?

Vai ter de ser. A Taça da Liga é o troféu mais próximo [a final four arranca  a 21 de janeiro], apesar de se disputarem ainda muitos jogos neste mês de janeiro. Então, é essa a competição que o Sporting tem de atacar agora, é a prioridade neste momento. A Liga Europa só regressa em fevereiro. O Sporting não terá pela frente um grande adversário [Basaksehir], mas, ao mesmo tempo, não será um adversário fácil. Em suma, o Sporting tem todas as condições para fazer uma boa prestação na final four da Taça da Liga e seguir em frente na Liga Europa.

Até ao momento, o Sporting realizou uma campanha bastante positiva na Liga Europa, ‘manchada’ pela pesada derrota (3-0) sofrida na última jornada da fase de grupos, aos pés do LASK Linz, que lhe tirou a liderança do grupo. Tem a sensação de que os leões mostram diferentes versões nas competições internacionais e nas provas internas? Se sim, por que motivo isto acontece?

Isso tem a ver com as diferentes formas de jogar das equipas. Lá fora, no estrangeiro, as equipas estão mais abertas e o Sporting tem mais facilidade em jogar contra equipas assim. Em Portugal é diferente. Mas há que ter em conta também o contexto em torno do Sporting, toda esta instabilidade, que também não ajuda nada. Mas o principal objetivo foi conseguido, que era passar à fase seguinte na Liga Europa. Mesmo nas competições europeias, o Sporting também teve jogos maus, como esse contra o LASK Linz, em que perdeu 3-0 diante de um adversário acessível. Mesmo no jogo da primeira volta, em Lisboa, o Sporting merecia ter perdido, e acabou por vencer. São estados de espírito diferentes. Na minha opinião, esta equipa tem um problema: quando sofre um golo, abana por todo o lado. Nesse aspeto, o Silas tem feito um trabalho tremendo. O Sporting faz jogos muito bons, como a segunda parte em Portimão a jogar com dez jogadores, ou a visita ao Santa Clara, em que fizemos um jogo excelente. Esse foi um Sporting mais próximo das capacidades que tem, apesar das deficiências apresentadas pelo plantel. Mesmo assim, neste último mês as coisas foram melhores para o Sporting.

O que falta, então, ao Sporting para que a equipa possa ter uma maior regularidade em termos de resultados?

Acho que falta estabilidade. Falta ter mais opções em termos de plantel para, quando as coisas não estão a correr bem, existirem alternativas com capacidade e estofo para vestir aquela camisola, o que não é fácil. Por muito que digam que é só chegar ao Sporting e jogar, o certo é que o peso da camisola é completamente diferente. E nota-se claramente que alguns jogadores tinham, nos clubes em que estavam, capacidades excelentes e, depois de chegarem aqui, as coisas não correram nem como eles estavam à espera, nem como o Sporting estava à espera. O Sporting precisa urgentemente de mais jogadores com estofo de campeão, que saibam que vêm jogar para um clube no qual existe uma pressão tremenda. Eu acho que é fantástico vir para um clube com a grandeza do Sporting, sabendo que se joga sempre para ganhar. Infelizmente, para eles e para o clube, há jogadores que não têm essa capacidade.

Esta época, já vimos o Sporting atuar com diferentes sistemas táticos. Não só com Silas, mas também com os treinadores que estiveram em Alvalade no início da época: primeiro Marcel Keizer e, mais tarde, Leonel Pontes. Na sua opinião, estas constantes alterações táticas prejudicam a equipa? Qual é o sistema ideal para este Sporting, tendo em conta o atual plantel?

Eu gosto muito de sistemas que incluam três centrais. Quando cheguei à equipa principal do Sporting, jogava dessa forma. Na minha opinião, é um sistema tático que deixa a equipa mais segura, em termos defensivos, e mais acutilante, em termos ofensivos, com jogadores em zonas atacantes que podem desequilibrar. E o Sporting tem isso. Mas estamos a falar de um sistema que tem de ser treinado. Não é jogar com três centrais de repente e pensar que as coisas vão correr bem. Os jogadores do Sporting não estão habituados a jogar dessa forma. Sempre que o Sporting optou por essa solução em termos táticos, não conseguiu vencer. Os seus jogadores estão habituados a jogar em 4x4x2 ou 4x3x3.

O Sporting é um clube conhecido pela aposta que faz regularmente na formação. Que jogadores jovens considera que se poderão destacar em 2020 ao serviço da equipa principal leonina?

Um deles já se está a destacar, que é o Luís Maximiano. Acho que ele é um excelente guarda-redes, que já conseguiu ganhar o seu espaço e continua a trabalhar por mais. Por outro lado, acho inaceitável e incompreensível que Pedro Mendes não seja inscrito na I Liga depois de venderem Bas Dost. Ainda para mais, sendo a responsabilidade, segundo o que se fala, do antigo treinador [Marcel Keizer], que não o quis inscrever. De resto, há que olhar também para o Nuno Mendes, um lateral esquerdo que é um bom jogador da equipa de sub-23, e para o Eduardo Quaresma, um grande central, de futuro, assim como para o Matheus Nunes e o Rodrigo Fernandes. Todos eles são jogadores com capacidade para, com tempo, trabalho e havendo estabilidade na equipa, que também é muito importante, virem a acrescentar algo ao plantel principal do Sporting.

Portanto, e apesar da necessidade de recorrer ao mercado, o Sporting também poderá aproveitar a ‘prata da casa’ para reforçar o seu plantel?

Acho que o Sporting já deveria ter feito isso, em vez de contratar alguns dos jogadores que contratou recentemente e que não acrescentaram nada ao plantel. Mas também aceito que o momento atual não seja propício para essa aposta nos jovens. Uma coisa é jogar nos sub-23 e outra, totalmente diferente, é jogar na equipa principal. Mas existem três ou quatro jogadores da formação que, no futuro, poderão ser mais-valias para o plantel.

Fonte: https://www.noticiasaominuto.com

Partilhar:
Share on Facebook
Facebook
Tweet about this on Twitter
Twitter